Existem dois erros silenciosos que estão envelhecendo empresas, conselhos de administração e CEOs: insistir em estruturas criadas para o século XX e governar organizações cada vez mais complexas longe da realidade da operação.
O primeiro risco está na velha pirâmide organizacional, baseada em autoridade concentrada e três níveis rígidos de comando. No topo, alguém pensa; no meio, alguém coordena; na base, alguém apenas executa.
Esse modelo perdeu força porque já não responde à velocidade, à complexidade e à dinâmica do mundo atual.
Hoje, quem está na operação também acessa dados, identifica falhas, utiliza tecnologia, percebe mudanças no comportamento do cliente e acumula um conhecimento que muitas vezes não chega às salas de decisão.
A inteligência artificial acelerou ainda mais essa transformação. A informação deixou de ser privilégio do topo e passou a circular por toda a organização. Ignorar o conhecimento de quem está próximo dos processos e dos clientes significa desperdiçar inteligência viva dentro da própria empresa.
O segundo erro é governar exclusivamente por relatórios, reuniões, indicadores e salas fechadas.
Planilhas mostram números, mas nem sempre revelam suas causas. Relatórios apontam sintomas, porém dificilmente conseguem capturar toda a realidade de uma fábrica, de um armazém, de uma equipe comercial ou de um atendimento ao cliente.
Conselheiros e CEOs precisam visitar a operação de forma planejada e frequente, não como cerimônia institucional ou oportunidade para fotografias, mas como verdadeiro método de gestão.
É no contato direto com a realidade que surgem os erros ainda invisíveis nos relatórios, os gargalos escondidos, as melhorias possíveis e as oportunidades que ainda não chegaram ao PowerPoint.
Para superar o primeiro erro, é preciso compreender que não estamos vivendo apenas uma nova fase da administração. Estamos diante de um novo mundo, marcado por mudanças contínuas, onde estratégia e execução já não podem permanecer separadas.
Para evitar o segundo, é necessário rever a maneira como as organizações enxergam quem está na base.
O profissional antes tratado apenas como “peão” mudou. Ele conhece o processo, sente o cliente, domina tecnologias, entende a rotina e, cada vez mais, deseja participar da construção da empresa.
O líder que não escuta a base governa com atraso.
O líder que aproxima conselho, estratégia e operação transforma a empresa em um organismo vivo, capaz de aprender, adaptar-se e evoluir continuamente.
No novo mundo dos negócios, liderança não é apenas decidir de cima para baixo. É criar inteligência coletiva suficiente para que a organização inteira pense, aprenda e avance.
Hélio Mendes- Palestrante, consultor empresarial e político. Autor de Planejamento Estratégico Reverso e Gestão Reversa. Curso de conselheiro pelo IBGC e ex-Secretário de Planejamento e Meio Ambiente de Uberlândia (MG).
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