Setores de alta lucratividade sempre caminharam em direção à concentração. Esse princípio, amplamente difundido por Michael Porter, ganha agora uma nova dimensão: a presença de uma pressão externa coordenada, estruturada e de longo prazo. O que antes poderia ser interpretado como tendência, hoje se consolida como uma realidade em curso.
Um sinal claro desse movimento aparece em dados recentes divulgados pela BandNews, indicando que o Brasil importou mais de 5 milhões de pares de calçados. À primeira vista, trata-se de uma dinâmica comercial comum. No entanto, ao analisar com profundidade, percebe-se um erro estratégico histórico: a transferência de fábricas e tecnologia para a China, sem a devida construção de políticas industriais capazes de proteger e sustentar a competitividade nacional.
O resultado dessa decisão é evidente. A China executou, com disciplina e visão de longo prazo, um projeto consistente de domínio das cadeias produtivas globais. Com escala, tecnologia e financiamento estratégico, passou a ocupar posições críticas na produção e distribuição de diversos setores.
No Brasil, os efeitos já ultrapassam o setor calçadista. Cadeias estruturais como couro, carne, soja e mineração mostram sinais crescentes de concentração e dependência, muitas vezes vinculadas a um único grande comprador externo. Esse modelo fragiliza a autonomia econômica e reduz a capacidade de negociação do país.
O risco, porém, é ainda mais profundo. O que hoje ocorre com calçados pode se replicar em outras commodities estratégicas. Não é improvável imaginar, em um horizonte próximo, produtos como café, leite e carne sendo comercializados no varejo brasileiro sob marcas estrangeiras especialmente de origem chinesa.
Esse avanço não acontece por acaso. Ele combina tecnologia, escala industrial, financiamento direcionado e uma agressividade comercial que atravessa desde bens de consumo simples até setores de alta complexidade, como o automotivo e o naval.
Diante desse cenário, torna-se urgente uma revisão das políticas industriais e comerciais brasileiras. Mais do que isso, exige-se das lideranças empresariais uma mudança de mentalidade: decisões orientadas exclusivamente por ganhos de curto prazo podem comprometer a sustentabilidade de toda a cadeia produtiva no longo prazo.
O alerta é inequívoco: quando estratégia nacional é substituída por oportunismo pontual, o resultado pode ser a perda definitiva de protagonismo econômico.
Hélio Mendes- Palestrante, consultor empresarial e político. Autor de Planejamento Estratégico Reverso e Gestão Reversa. Curso de conselheiro pelo IBGC e ex-Secretário de Planejamento e Meio Ambiente de Uberlândia (MG).
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