A geopolítica sempre foi um vetor estratégico central para grandes nações e corporações globais. Nos países em desenvolvimento, contudo, permaneceu por décadas relegada a segundo plano seja por prioridades imediatas, seja por limitações culturais e institucionais. Esse cenário mudou de forma definitiva.
A ascensão da China como potência econômica, a guerra entre Rússia e Ucrânia e, mais recentemente, o impacto direto do tarifaço dos Estados Unidos sobre cadeias produtivas nacionais recolocaram a geopolítica no centro das decisões econômicas. Hoje, ela influencia preços, acesso a mercados, cadeias de suprimentos, investimentos e competitividade setorial.
A pergunta crítica deixou de ser se a geopolítica importa. A questão central passou a ser em que medida ela já está, de fato, incorporada à estratégia dos setores nacionais.
O Mercosul é um exemplo emblemático. Concebido no final da década de 1980, caminha para uma conclusão formal em 2026 ainda cercado de incertezas, tensões políticas e obstáculos regulatórios. Quantos setores nacionais possuem, hoje, um plano estratégico estruturado para capturar valor real desse acordo? Quantos mapearam riscos, oportunidades, assimetrias competitivas e impactos geoeconômicos de longo prazo?
A ausência dessa resposta revela um risco recorrente: perder, mais uma vez, o bonde da história.
Geopolítica não é opinião. É método. Informação isolada não é estratégia. A leitura superficial da mídia, embora necessária, é insuficiente para orientar decisões estruturantes. Cabe às lideranças empresariais e institucionais assumirem o monitoramento profissional dos movimentos geopolíticos, traduzindo cenários globais em decisões concretas de posicionamento, investimento e proteção.
A cobrança é objetiva e inadiável: ou os setores nacionais integram a geopolítica à sua agenda estratégica, ou continuarão reagindo tardiamente a decisões tomadas fora de suas fronteiras pagando o preço da improvisação, da perda de competitividade e da irrelevância.
Hélio Mendes – Palestrante, consultor empresarial e político, autor de Planejamento Estratégico Reverso e Gestão Reversa. Curso de Conselheiro pelo IBGC e ex-Secretário de Planejamento e Meio Ambiente de Uberlândia/MG.








