A trajetória do povo judeu, perseguido ao longo dos séculos e, ainda assim, reiteradamente vencedor, constitui um dos exemplos mais consistentes de resiliência, coragem e profunda religiosidade da história. Sua cultura, que integra de forma orgânica família, negócios e patriotismo, oferece lições valiosas que ultrapassam o campo religioso e merecem ser estudadas sob a ótica da gestão e da liderança.
Ao contrário de interpretações superficiais, o judaísmo não se limita à espiritualidade abstrata. Ele combina fé e ação concreta, passado e futuro, ética e prosperidade. A história ocupa um papel central: é vista como guardiã do presente e do amanhã. Ignorá-la equivale a ser uma árvore sem raízes, vulnerável a qualquer intempérie. Da mesma forma, uma organização sem memória histórica perde identidade, coerência e sentido de continuidade torna-se, em essência, uma empresa sem vida.
No campo dos negócios, um ensinamento recorrente entre rabinos descreve a estrutura das relações econômicas em três círculos fundamentais. O primeiro é o Eu, pois todo empreendimento nasce de uma pessoa, de sua responsabilidade e de seus valores. O segundo é o Outro, aquele cuja necessidade deve ser atendida de forma justa e ética. O terceiro é o Nós, a comunidade que se beneficia quando os dois primeiros círculos estão em equilíbrio. Essa lógica sustenta uma visão segundo a qual o crescimento coletivo precede o lucro, que surge como consequência natural, e não como único objetivo.
Valores familiares e memória histórica moldam práticas empresariais éticas sob o manto da religiosidade. Um negócio justo transforma a empresa em um espaço sagrado; um contrato sem ética equivale a um casamento sem amor. Não por acaso, um antigo provérbio resume essa filosofia de forma simbólica: quando dois judeus se encontram, um terceiro prospera a comunidade.
Em tempos de decisões rápidas e ambientes instáveis, essa visão reforça uma verdade essencial: boa gestão não nasce apenas de técnicas ou ferramentas, mas de uma base sólida de valores, história e filosofia. Organizações que compreendem isso constroem não apenas resultados financeiros, mas legados duradouros.
Hélio Mendes
Palestrante, consultor empresarial e político. Autor de Planejamento Estratégico Reverso e Gestão Reversa. Conselheiro pelo IBGC e ex-Secretário de Planejamento e Meio Ambiente de Uberlândia/MG.








