Em quase quatro décadas coordenando processos de Planejamento Estratégico, encontrei poucos empresários, conselheiros e CEOs com domínio consistente de geopolítica. Mesmo nos cursos de pós-graduação, o tema raramente aparece como disciplina estruturante. Hoje, porém, com o tarifaço e a reconfiguração acelerada do sistema internacional, começam a surgir programas específicos cujo maior desafio será formar docentes realmente preparados. Geopolítica exige leitura contínua, análise diária e vivência internacional. Deixou de ser um debate sociológico para se tornar um imperativo estratégico.
Historicamente, o domínio da geopolítica foi um ativo das grandes potências e das corporações multinacionais. No Brasil, país periférico e com poucas empresas transnacionais, esse conhecimento não se consolidou. O cenário, no entanto, mudou de forma decisiva. O tarifaço, os conflitos emergentes em diversos continentes e a transformação tecnológica do varejo aos sistemas robotizados estão impactando cadeias produtivas, custos, competitividade e, em muitos casos, o próprio modelo de negócios de setores inteiros.
Nesse ambiente, ignorar geopolítica significa comprometer a capacidade de formular estratégia. CEOs precisam compreender como choques externos alteram vantagens comparativas, redes de fornecimento, estruturas de custo, regulação e o comportamento dos mercados. Estratégia não se constrói apenas com dados internos; ela nasce da leitura do contexto global e da antecipação de riscos e oportunidades.
Por isso, o domínio da geopolítica deixou de ser opcional. Tornou-se um pré-requisito para liderar organizações com visão de longo prazo e capacidade real de competir em um mundo mais instável, interdependente e tecnológico.
Hélio Mendes — Palestrante, consultor empresarial e político; autor de Planejamento Estratégico Reverso e Gestão Reversa. Curso de Conselheiro pelo IBGC e ex-Secretário de Planejamento e Meio Ambiente de Uberlândia.








